O QUE É: Coco

Em mais um artigo da série O QUE É: escreverei sobre o Coco, desde sua origem aos dias atuais, lembrando dentro deste contexto, seus mestres e mestras que ao longo dos anos (com muito sacrifício e labuta) divulgaram o ritmo. Pois bem, no que diz respeito a sua origem, alguns estudiosos, historiadores e folcloristas em suas teses divergem entre si. Alguns defendem a ideia de que o Coco surgiu a princípio nos engenhos interioranos e só a posteriori chega ao litoral. Outros acreditam que seu surgimento se dá na própria região do litoral. Entretanto há uma terceira hipótese, nela, acredita-se que o Coco já teria vindo do continente africano, através das tribos de origem Banto (habitantes da região hoje conhecida por Congo e Angola).

Não só a origem como também a diversidade rítmica do Coco são multifacetadas, dependendo da região o Coco sofre alterações rítmicas como também mudança no que diz respeito a nomenclatura e até mesmo nos instrumentos usados. Ou seja, no Coco há várias versões e inúmeras maneiras de executa-lo. A exemplo podemos citar as variações: Rítmicas – Coco de Ganzá, Coco de Zambê e Coco de Mungonguê. Métrica dos versos – Coco Agalopado, Coco de Sétima e Coco de Embolada. Dependendo do local também recebe vários nomes: Coco de Roda, Coco do Sertão, Coco de Praia, Catolé, Toré, De Umbigada, de Desafio, etc. Apesar das variações nos quesitos métrica, ritmo e espaço geográfico; A pisada (ritmo) não sofre consideráveis alterações ao ponto de não conseguirmos decifrar a música tocada, pois quando se vê uma roda de Coco é impossível não saber que ritmo tão peculiar é aquele.
Até então, vimos que o Coco é um ritmo que sofre pequenas alterações, mas não precisamos nos preocupar, pois Coco é Coco em qualquer lugar, independente do nome que lhe é atribuído: De roda, de umbigada, do sertão ou da praia, tanto faz, até porque, o que nos interessa é a musicalidade do ritmo e não a epistemologia. Por falar em influencia, não podemos negar nunca, quais foram as influencias obtidas e anexadas ao Coco. Dentre as principais influencias estão a africana e a indígena. Do lado africano temos o ritmo propriamente dito, os tambores e chocalhos tocados em 2/2 e/ou 2/4 e cantados na forma refrão-estrofe. Na influencia indígena, temos a questão estética do grupo, ou seja, a maneira dos participantes posicionarem-se, que é em fileira ou em forma de roda. As influencias do Coco, como eu já disse, são incontestáveis, como também é inegável sua origem nordestina. Como todo estudo a respeito de um tema gera diversas teorias, com o Coco acontece o mesmo. Alguns pesquisadores acreditam que o ritmo é pernambucano, outros acreditam ser paraibano e há ainda um terceiro grupo que acredita ser alagoano. Por ser um ritmo tipicamente brasileiro e consequentemente nordestino, cada um dos três Estados o querem para si, já que acima de tudo é um signo de afirmação de identidade regional.

Nas teorias lançadas para tentar explicar a origem do Coco, há exemplos e argumentos bem elaborados e sucintos. Um desses diz que o Coco é originário do quilombo dos Palmares. Os ex-escravos alojados no quilombo usavam o coco para auto-sustentação e o quebravam a fim não só de extrair sua água e polpa, como também trabalhar (esculpir ou moldar) utensílios domésticos, tais como colheres, conchas, pratos, ponta de lanças, esculturas, etc. Durante o trabalho de quebrar o fruto, cantarolavam e alguns até dançavam. Há uma teoria do interior que diz que o Coco surgiu a partir do momento em que trabalhadores se juntam em mutirões para bater o barro dos pisos das casas, pois, naquela época era comum entre a população mais carente, casas de piso de barro batido. De uma forma ou de outra, podemos concluir que o Coco surgiu do povo, ou seja, é uma dança popular. Com o tempo foi ganhando mais adeptos e seu período áureo se deu no começo dos anos 50 até o final dos 60, nessa época o Coco chegou a ser dançado em salões por pessoas de maior porte econômico. Após os anos 60 o Baião e o Samba ganharam maior notoriedade e o Coco consequentemente perdeu espaço no cenário popular nacional.

O Coco pode ser dançado por homens e mulheres (exceto o Coco de desafio, dançado só por homens) e em qualquer época do ano, ou seja, não há época especifica para se dançar Coco, porém há uma tradição maior no período junino. Apesar de ser uma dança laica e lúdica, o Coco é executado geralmente em festas religiosas: Festas de Reis, Padroeiros (as), São José, São João, Benditos, etc. No Nordeste há duas cidades conhecidas por difundir o Coco. Arcoverde, em Pernambuco e outrora, Campina Grande na Paraíba. Em Arcoverde ainda há um movimento organizado que trabalha no “resgate”, execução e divulgação do Coco. Movimento esse começado por Lula Calixto e continuado pelo grupo Coco Raízes de Arcoverde, além de outras agremiações menos conhecidas. Tal empenho gera frutos, a banda Cordel do Fogo Encantado sem dúvida é influenciada pelo ritmo. A vertente mais executada na região é o Coco de Toré e de Umbigada. Na Paraíba a cidade embaixadora do Coco é Campina Grande. Foi em Campina que o filho de Dona Flora Mourão, José Gomes Filho (mais conhecido como Jackson do Pandeiro), um Paraibano de Alagoa Grande, escolheu para divulgar o Coco de embolada. Hoje na cidade ainda há um movimento considerável, mas “meio” esquecido pelo poder público. Alguns nomes como Baixinho do Pandeiro, Benedito do Rojão e Biliu de Campina carregam (praticamente) “nas costas” a tradição do folguedo quase sem nenhum apoio. Enquanto isso, a cada São João a cultura de massa “chuta pra escanteio” a cultura popular.

No que diz respeito a métrica do ritmo e sua execução. Geralmente o Coco é tirado (cantado) por um mestre ou mestra coquista. Ao puxar (começar) os versos, o (a) coqueiro (a) é respondido pelo coro (demais integrantes da roda de Coco). Os versos podem ser já conhecidos ou de improviso como no Coco de Embolada. Os instrumentos, independente da nomenclatura do Coco, são praticamente os mesmos: Triangulo, Ganzá, Surdo, Zambê, Zabumba, Caracaxá, Mongonguê, Cuíca, Alfaia, Pandeiro, e, o instrumento mais importante de todos, os Tamancos! São as sandálias de madeira e couro que dão autenticidade e legitimidade ao ritmo. Os tamancos dos (as) dançarinos (as) juntamente com as palmas fazem a marcação rítmica do Coco. A batida principal são três marcações fortes com o pé direito e uma mais fraca com o pé esquerdo, dependendo do Coco, as marcações são outras. Existem marcações mais rápidas e outras mais lentas. Como já disse, depende do Coco (de Roda, Embolada, Desafio…) e da região (PE-PB-AL…).

Como é um ritmo feito pelo povo e também uma dança feita para o povo. O Coco é a integração entre os mais diferenciados setores sociais da comunidade englobando qualquer tipo de brincante. No Coco não há distinção alguma, todo mundo brinca independente do gênero, da raça, da crença ou condição financeira. Algumas artistas são “canonizados” na arte do Coco, pessoas como Flora Mourão, Jackson do Pandeiro, Lula Calixto, Bezerra da Silva, Selma do Coco, Lia de Itamaracá e Zé Neguinho do Coco. Inúmeros nomes (nordestinos ou não) da MPB (Música Popular Brasileira) sofreram e sofrem influencia do Coco. Nomes como Alceu Valença, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Paralamas do Sucesso, Fagner, Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Fernanda Abreu, Gabriel o Pensador, Domingunhos, Sivuca, Zé Ramalho, Renata Arruda, Elba Ramalho entre outros. A própria cena Mangue através de suas bandas também beberam da água musical do Coco, bandas, cantores e cantoras como Chico Science & Nação Zumbi, Otto, Silvério Pessoa, Ortinho, Comadre Fulorzinha, Escurinho, Issar França, Cascabulho, Khrystal, Alessandra Leão e Lenine.

Referencias Bibliográficas:

BRINCANTES. Recife: Prefeitura da Cidade, Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2000. p. 104-107.

RIBEIRO, José. Brasil no folclore. Rio de Janeiro: Gráfica e Editora Aurora, 1970. p. 403-404.

Nova História da MPB. 2ª Edição. 1977. Ed. Abril Cultural

CASCUDO Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro

Marcilo Ramos (Jataúba-PE,1985) é Historiador e entusiasta da cultura pernambucana. Secretário cultural do C.A (Centro Acadêmico) Eduardo Galeano (UEPB). Faz parte do grupo de estudos Poesia na Escola e membro do cine clube história Eduardo Coutinho (UEPB).

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