O QUE É: Pastoril

Da infância muitas coisas me recordo, dentre estas lembranças está o Pastoril, folguedo popular que encena o nascimento de Jesus. Sendo uma festa de reis, o Pastoril é realizado em véspera de Natal ou no dia do padroeiro (que na minha cidade é São Sebastião). Lembro que nos anos 90 ir assistir o Pastoril na praça principal era um programa para toda a família (inclusive a minha). Como esse mês de janeiro é festa de padroeiro na minha cidade, resolvi relembrar um pouco da minha alegre infância recordando o Pastoril e tentando explicar a você caro leitor, o que vem a ser e o por que do Pastoril.

Então, o que é o Pastoril? Em Pernambuco (principalmente no interior do Estado) é um folguedo que integra o ciclo de festas religiosas no período natalino. É classificado como festa de reis, se caracteriza dessa forma pelo fato do mesmo em sua encenação exaltar o nascimento de Jesus. O Pastoril hoje assumiu aspecto popular ao contrário de tempos atrás onde tinha caráter erudito. Durante a apresentação o público participa intensamente torcendo por um dos cordões (o azul ou o vermelho), não sendo raro, palmas para sua cor favorita e vaias para a cor adversária tornando assim o espetáculo além de mais interativo, emocionante também.

Por que o nome Pastoril? Pelo simples fato de que quem canta as loas (toadas, cânticos) são chamadas de pastorinhas, sendo assim, as pastorinhas dançavam e cantavam nos Pastoris. O Pastoril serviu e serve, ainda hoje, para melhor compreensão da narrativa que cerca o nascimento de Jesus (principalmente para as crianças), é assistindo ao Pastoril (história oral) que a criança compreende melhor o significado do nascimento de Jesus para a religião cristã, nesse caso a crença católica. Como toda peça teatral, a encenação é dividida por partes que são chamadas de atos. Apesar de ser um auto natalino profano, o Pastoril tem um “que” de sagrado, pois, geralmente é organizado pela igreja e realizado também nas festas de padroeiro (a) da paróquia.

Como é o Pastoril? Formam-se dois cordões, o azul e o encarnado (vermelho).
As participantes carregam nas mãos pandeirolas com fitas das respectivas cores pertencentes a seu cordão. Os pandeiros servem para dá o compasso e marcar o ritmo durante a apresentação. Algumas delas trazem consigo sextas com flores e frutas simbolizando oferendas para o menino Jesus (representando assim os três reis magos). As personagens do folguedo são a Diana (vestida com as duas cores, portanto, a Diana é uma espécie de mediadora entre os dois lados). Comandando o cordão azul está a Mestra, consequentemente do outro lado se encontra a Contramestra representando o cordão vermelho, há também a Cigana, o Anjo, a Estrela e a Abelha. No final da apresentação quem decide (com aplausos) o cordão vencedor é o povo. Nos Pastoris mais antigos o Velho era o gaiato da peça, o tirador de onda…, soltava muitas piadas (na maioria das vezes pesadas). Há até relatos de que antigamente saia até para a briga por conta de tais piadas, hoje o personagem do Velho na maioria dos Pastoris que ainda resistem, foi extinto. Apesar da peça se consistir em vários atos, há dois mais importantes, o de chagada e o de partida. Assim como nos velhos países europeus católicos (ex: Grécia, Roma, França, Portugal e Espanha), as festas eclesiásticas também se transformam em folguedos populares, sendo quase que impossível desvincular um do outro. Com o Pastoril acontece o mesmo.

Pra que serve o Pastoril? Com as encenações dos Pastoris ficou mais fácil compreender a cena que se via nos presépios natalinos, até porque com os Pastoris a cena do nascimento de Jesus ganhava vida e assim consequentemente mais veracidade.
Estudiosos como Sylvio Romero e Pereira da Costa defendem a teoria de que nos séculos XVII e XVIII em Pernambuco o Pastoril teve seu tempo áureo. Já para Mario de Andrade só no período oitocentista (século XIX) é que o Pastoril teve seu apogeu. Divergências a parte, o Pastoril foi muito difundido por volta dos anos 30, 40, 50 em todo o NE, e, em tempos não tão longínquos assim. Pois até os anos 80 artistas e poetas dedicavam um pouco do seu tempo e seu dom para criar loas (canções) para os Pastoris.

Diferente dos presépios vivos, os Pastoris eram encenados de forma lúdica e alegre, mas dinâmica pode-se assim dizer. A sociedade era dividida, uns gostavam e iam prestigiar, outros condenavam principalmente pela figura do velho “pilherento”. O Fato é que o Pastoril é sagrado e profano ao mesmo tempo, não tendo uma identidade definida e isso incomoda pessoas mais conservadoras. Porém nada que tire o brilho desse brilhante folguedo popular que assim como nenhum outro perpetua de forma oral a história do nascimento de Jesus Cristo.

Marcilo Ramos (Jataúba-PE,1985) é Historiador e entusiasta da cultura pernambucana. Secretário cultural do C.A (Centro Acadêmico) Eduardo Galeano (UEPB). Faz parte do grupo de estudos Poesia na Escola e membro do cine clube história Eduardo Coutinho (UEPB).

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